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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Influências de Brecht na obra de Glauber Rocha

Podemos notar a presença da teoria Brechtiana na maioria das obras de Glauber Rocha, seja ela referente à montagem, à construção narrativa, o coro ou a trilha sonora da cinematografia de Glauber.
De acordo com a teoria Brechtiana sobre a construção da narrativa podemos perceber que Glauber Rocha incorpora a estética brechtiana no filme “Deus e o diabo na terra do sol” ao construir uma narrativa onde ocorrem saltos na história como, por exemplo, o ritmo de ações que ocorre em um período estático do filme acontecendo por diversas vezes reviravoltas na trama do diretor.
No filme isso é caracterizado desde o começo da trama onde Glauber começa contando a história da vida de Manuel e Rosa, quando é cortada para o assassinato do fazendeiro (coronel), passando de um momento imóvel para uma seqüência de ações, entre elas, a perseguição do assassino do coronel (Manuel), a morte da mãe de Manuel e a fuga de Manuel ocorrendo logo em seguida uma outra reviravolta tornando a trama novamente monótona. O mesmo exemplo pode ser encontrado no filme de Glauber Rocha que fora indicado em sala de aula chamado “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”, onde após longos períodos de uma trama ociosa ocorre uma reviravolta repentina. Verificamos isso nos trechos onde ocorre os adultérios, que por conta das traições o ritmo do filme acelera e acaba acontecendo uma série de intrigas. Podemos verificar também a presença de cortes rápidos ou jump cut que interrompe a ação do personagem fazendo, talvez, uma oposição, uma crítica à construção do cinema hollywoodiano.
Este tipo de narrativa podemos encontrar também na obra de Brecht, no livro “O círculo de giz caucasiano”, na parte onde Grucha está andando pela estrada para ir para casa de seu primo ocorrendo abruptamente uma reviravolta na história passando para uma seqüências de ações relacionadas à perseguição de Grucha por parte dos “soldados”. Ou até mesmo com a quebra que Brecht realiza no começo da trama em que ele conta uma história e repentinamente começa outra e no fim da obra insere uma outra história (Azdak).
Podemos destacar também a presença de vários “planos seqüência” no cinema de Glauber, inclusive na cena da perseguição de Manuel e Rosa, já citado. De acordo com a teoria Brechtiana essa seqüência, o plano sem cortes, pode evidenciar o retrato do acontecimento real dos fatos.
A didática dos filmes de Glauber também pode ser associada à forma com que Brecht pensa sobre a questão política-social, onde no filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha isso é evidenciado na escolha dos enquadramentos, onde o povo é enquadrado, na maioria das vezes, em planos gerais, aparecendo em locais abertos e os políticos aparecem em planos mais fechados, aparecendo em locais que não permitem o acesso do povo, locais mais reservados.
Podemos observar que a idéia de divisão de público quanto a escolha do “herói”, que acontece no fim do livro “O circulo de giz caucasiano”, na disputa da criança, também ocorre na obra de Glauber. Em “Terra em transe”, Glauber sugere essa divisão ao fazer o personagem Diaz olhar para a câmera e perguntar: “Qual é a sua classe”, fazendo com que haja conflito de opiniões entre os espectadores.
Por fim uma teoria importante do teatro Brechtiano é o Coro, que serve, não para a emoção, mas para o efeito de distanciamento. Também podemos associar isso à obra de Glauber, principalmente no filme “Deus e o diabo na terra do sol”, onde o Glauber utiliza da trilha que participa da cena ironizando ou narrando o acontecimento como, por exemplo, a trilha do Antônio das Mortes (“...Antônio das Mortes, matador,matador, matador de cangaceiros, matador...”), onde aparece sempre quando o personagem está em conflito com cangaceiros.   

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